segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Cem anos que dure...

Cem anos que eu dure vou sempre recordar...
Andava eu adormecida na minha vida morna que ia arrefecendo mais um pouco a cada dia que passava...
Estávamos em Março de 1995 e ouvi dizer que íamos almoçar com uns amigos do meu pai ao restaurante Freitas ao pé da barragem Crestuma/Lever. Contrariando os planos que tinha para esse dia de domingo, lá esperei por esses ditos amigos que eu não conhecia de lado algum...
Até que chegaram os ilustres convidados. Eu estava ao cimo das escadas  vestida e penteada como calhou pois estava mais contrariada que sei lá o quê. Não me esforcei minimamente. Queria ter conseguido ver-me livre de fazer sala mas como não consegui, mostrei o meu desagrado não me arranjando sequer.
Estava então eu no cimo das escadas quando ouvi barulho de carros a parar á porta e saem do carro um casal e dois filhos. Entram no portão e começam a subir as escadas em minha direcção. Recordo o filho mais velho a subir as escadas: nunca tinha visto nada igual. Devo ter ficado sem ouvir, respirar e sem batida no coração. Tudo parou á minha volta: apenas aquela miragem subia em câmara lenta em minha direcção. não o senti a aproximar-se e acordei já com ele a inclinar-se perante mim para me cumprimentar. Aí senti o perfume dele e o picar de uma barba fofa. Começava a vir a mim de novo.
Mostrou-se a casa e fomos então almoçar e ele ficou sentado ao pé de mim. Se a sua imagem me deslumbrou, a sua conversa e a sua postura me enfeitiçaram.
De tarde fui com os dois irmãos mostrar-lhes Gondomar ( Monte Crasto é o cartão de visita) e já começaram a surgir umas trocas de palavras meio inocentes meio não inocentes. Fomos tomar café no Que de Noite bar e fomos até casa dos meus pais. Emprestei uns livros ao mais novo sempre de olho no mais velho. Eu não queria que aquela tarde terminasse nunca mas as horas voaram tão rápido...
Trocámos números de telefone fixo e fui levar os dois irmãos á entrada da estrada da marginal para talvez nunca mais o voltar a ver.
Aí senti que o beijo de despedida foi mais encostado  que o da hora de almoço e eu vim para casa  completamente inebriada e a pensar no que me acabava de acontecer:
Tinha-me apaixonado á primeira vista. Nunca tinha sentido nada igual.
Ele era o tal: Tinha que ser.

Cem anos que eu dure, recordar-me-ei da visão de quando o vi pela primeira vez
Cem anos que eu dure, sinto o roçar da barba e o beijo daquela despedida
Cem anos que eu dure, o amarei para sempre.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

A minha mãe

Nasce a 24 de Outubro de 1955 no seio de uma família humilde. De pele clara e de olhos de cor indefinida:  nem castanhos, nem verdes. Covinhas na cara quando sorri. Uma força da natureza.

Devido a problemas de saúde de sua mãe, torna-se uma dona de casa em miniatura : tratava da casa, do pai e da irmã como uma adulta. Escolaridade até á 6ª classe, altura em que se dedica a aprender costura.
Conhece o meu pai num passeio de dois dias a Fátima...
Após um namoro á distância, quase só por carta, o casa-se a 1 de Setembro de 1973,  ainda sem ter completado 18 anos de idade.

Com o casamento, acontece a saída do ninho para França sem conhecer uma palavra de francês, para um mundo desconhecido. Desenrascou-se mais uma vez e sem dar moleza, mostrando a sua força de carácter.

Em 1975 torna-se mãe e faz trabalhos domésticos em casa de algumas pessoas. Em 1983 regressa á terra Natal e mantém-se á frente de um negócio próprio até 2001, altura em que vem para casa. Sem pedir ajuda para nada diz muitas vezes:  nunca peças a quem pediu nem sirvas a quem serviu.
Aguenta firme todas as tempestades que a sua vida tem enfrentado.
Muito frontal e muito pragmática. Para ela não vale a pena chorar sobre leite derramado. É uma mulher que se é para fazer, arregaça as mangas e já devia estar. Faz parte de si alguma timidez ao primeiro contacto. Possui um sexto sentido apurado para certas pessoas e situações. É defensiva. Tem uma forma muito própria de lidar com as situações. Tem um coração enorme que se desmancha todo se devidamente tocado.
A minha mãe é como uma guitarra: não é qualquer que a agarra e faz vibrar...

É assim a minha mãe...


quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Depressão pós- parto? Já era...

Ontem fui ao médico que me acompanhou numa depressão pós-parto. Recorri a ele em Março deste ano porque depois do nascimento do meu Pedro voltei a desligar os fusíveis. Nada de novo. Já do nascimento da minha Ana me senti muito mal mas não admiti que precisava de ajuda.

Logo após a fecundação, o corpo da mulher sofre alterações profundas para gerar, nutrir e proteger o novo ser que se está a formar. O momento do parto, em termos de hormonas, dispensa qualquer descrição. Não me admira que depois disto tudo hajam mulheres que descompensem.

Eu fui uma delas.

Após o nascimento da Ana, "bati de frente" com a amamentação. Doía-me, gretei, chorei, neguei-me, enfim: passou a ser um martírio cada vez que se aproximava a hora de amamentar. Entrei em conflito comigo própria e num sentimento de culpa de que ainda hoje me ressinto. Ao fim de 15 dias comprei uma bomba extractora e ao fim de um mês já não amamentava, já não tinha leite.

Avariei.

Nunca tinha trocado uma fralda, dado um banho, um biberão a um bebé e a partir daquele 9 de Janeiro tinha tudo isso a meu encargo. Sentia-me angustiada quando se aproximava a noite....
Os meses foram passando e fui trabalhar. Essa primeira manhã de trabalho...chorei tantas vezes quantas vezes respirei. Já ao sair de manhã nesse dia 9 de Maio, olhar para ela a dormir na cama sem lhe poder explicar que dali para a frente tudo iria mudar, sai a chorar. A tarde passou melhor e chega a hora de a ir buscar a casa da avó Nanda. Quando lá cheguei e olhei para ela: aquele corpo, meio desnudado a brincar deitada em cima da mesa da sala como se nada fosse...chorei até soluçar. Depois deste dia fui ficando mais forte. Senti-me uma mulher inteira outra vez. Os meses foram passando e acontece a planeada gravidez do Pedro.

Novamente o corpo recomeça o seu trabalho. Novamente o parto e novamente a amamentação.

 No segundo dia depois do Pedro ter nascido, tomei a decisão de fazer a medicação para inibir a produção de leite. Já me ressentia fisicamente e já tinha visto esse filme antes. Sobretudo tinha que estar bem para quando chegasse a casa não fazer sofrer a Ana, numa altura já de si frágil. Já me sentia desequilibrada.

Tomei a decisão.

Ao tomar o primeiro comprimido senti-me a pior mãe do mundo. Tudo o que senti com a Ana, senti-o novamente. Hoje reconheço que foi a melhor atitude. Tentei com a Ana. Tentei com o Pedro. Não fui capaz. Senti-me uma falhada, um mimalha, menos mulher: e se não tivesse dinheiro para comprar leite de fórmula, não teria que suportar aquilo? Eu não fui capaz de fazer aquele sacrifício tratando-se de um filho? Que mãe era eu?

 Descarrilei outra vez.

Desta vez procurei ajuda médica. Estava de rastos. Não tratava de mim, só queria dormir, que alguém me ficasse com os miúdos, não saía de casa e ficava com o olhar vazio, parado, á espera não sei de quê. Todos os dias, invariavelmente, me martirizava que não era aquela mãe que queria ser para os meus filhos.
Fiz um tratamento e aos poucos fui melhorando. As minhas tarefas deixaram de ser tão penosas para mim. Fiz algumas coisas que queria fazer mas que não tinha tido coragem; fui-me sentindo mais liberta, mais viva. Também ajudou ter começado a trabalhar. Desta vez não foi penoso porque farta de estar em casa estava eu.
Ontem o médico deu-me alta da depressão pós-parto e fez-me sentir que em vez de eu achar que sou eu que estou a pensar mal, a agir mal e "beber" as opiniões dos outros porque essas é que são boas...que tal pensar por mim própria porque afinal a minha opinião sobre um dado assunto é TÃO válida quanto a de outra pessoa. Não é melhor nem pior, é a MINHA! Construída pela minha cabeça tendo por base aquilo que sou. Seguir os meus impulsos. O primeiro impulso é sempre o mais puro, o mais verdadeiro. Para quê esperar a opinião dos outros antes de agir?
É assim que vejo as coisa hoje.

Nunca pensei aos 34 anos, depois de ter dado á luz duas crianças perfeitas, ter-me enfiado num barco: acalmia - tempestade - acalmia - tempestade - ... Felizmente tinha um colete e penso que me salvei em relação aos meus filhos.

Agora falta remar em direcção ao papá..
Sem ele nada faz sentido: a minha vida, os meus filhos. Somos um todo.
Preciso dele para mim. Há aqui um véu que vai ser retirado porque eu quero e amo muito aquele homem. O meu marido, o meu confidente, o meu amor, o nosso papá...
Esse véu já me tapou toda. Tapou tudo á minha volta. Já me descobri, descobri os meus filhos agora é a vez da minha outra metade... Vamos a isso!

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Nostalgia do fim das férias...

Sabor amargo este do fim das férias... Esta disponibilidade de estar com os filhos a toda a hora, a ouvir todos os seus comentários e a minha Ana está uma tagarela! O meu Pedro no inicio das férias tinha 2 dentinhos e agora tem mais 4 a despontar!
Isto é que é acompanhar a evolução dos rebentos...
Não quero dizer que no dia a dia não os acompanhe mas não é a mesma coisa... Há tantos compromissos a preencher-nos a cabeça que no final do dia só pensamos em repor energias para o dia seguinte...
Ontem estive na praia até as 20H30. Já estava o sol bem longe e eu antecipei que para a semana já trabalhei, já os fui buscar, já cheguei a casa, já... já...já... Não é a mesma coisa que estar na praia, não, não é...
E descomprimir demora algum tempo mas para comprimir é a cem á hora...

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Férias em família...

Férias em família... A principio fiquei apreensiva acerca de como iriam correr as férias desta feita acompanhada pelo meu marido, os meus 2 filhos, pelos meus pais e a minha sogra... Com o calor á mistura, parecia-me uma mistura explosiva porque cada um tem a sua forma de estar e de viver sobretudo em férias. As férias vão a mais de metade e tem tudo corrido bem. É sem duvida uma mistura mas não é explosiva de maneira nenhuma.

Ontem estive na praia com o meu marido e a minha princesa. A água do mar estava divina e foi muito boa a partilha que tive com ela. Igualmente gratificante foi ter chegado ao areal e o meu marido dizer-me que somos a vida dele...
 No meio deste momento de felicidade lembrei-me que dentro de uma semana já a rotina do trabalho se instalou e lembrei-me também que um amigo que conheço desde que nasci esteve a fazer uma biopsia e lembrei-me de todos aqueles que estariam a sofrer, a morrer e que não estavam a viver um momento bom como aquele e fiquei a levitar a fumar um cigarro e prometi que depois daquele cigarro viraria a página para onde a minha cabeça me levou...

Recomendo férias em família uma vezinha por ano para se reencontrarem os membros mais queridos e próximas porque afinal só se vive uma vez e fazemos parte da vida uns dos outros...
Difícil é ...arranjar tempo para namorar ... mas não se pode ter tudo...

sábado, 7 de agosto de 2010

Um bocadinho de mim...

Estávamos em 1975 e os meus pais emigrados em França daí que eu nasci lá a 13 de Dezembro. Era sábado. Estava a minha mãe a lavar os cortinados na banheira quando eu resolvi "bater á porta". O meu pai estava a trabalhar num restauro de um barco. Estava previsto nascer a 17 de Dezembro de cesariana mas achei que 13 era o dia ideal. A minha mãe foi chamar um vizinho também português que vivia no 3º andar do prédio. Ele levou-a á Clínica do parque dos Príncipes e foi avisar e buscar o meu pai. Ás 13h30 abro pela primeira vez os olhos.
 Estive em França até Julho de 1983. Tive todas as doenças e mais algumas que seriam desejáveis para uma criança, preguei os sustos que todas as crianças e os meus pais aguentaram tudo sozinhos, sem ajudas, sem reclamar, com uma dedicação e um espírito de sacrifício que hoje em dia já não se encontra facilmente.
Ingresso os meus estudos na 2ª classe e continuo por aí fora até me formar em Química na Faculdade de Ciências do Porto. Os meus pais abrem uma loja de venda de discos - Discoteca Nathalie - nome sugerido pelo meu Avô Moreira e cresço sempre com a musica por perto.
Olho para trás e é isto que fica: onde nasci e a vida que naquela altura os meus pais tiveram sem telefone, telemóvel e Internet. E eram felizes, unidos e ainda hoje há coisas que ainda doem quando se falam, nomeadamente na palavra SAUDADE. Os meus pais dizem que deram o verdadeiro valor ao significado da palavra saudade e o quanto é vulgarizado hoje em dia. E todas as comodidades que estão  ao nosso dispor, não simplificam:  complicam as relações entre as pessoas, não as aproxima. Pelo contrário: afastam, controlam, tiram liberdade...