Ontem fui ao médico que me acompanhou numa depressão pós-parto. Recorri a ele em Março deste ano porque depois do nascimento do meu Pedro voltei a desligar os fusíveis. Nada de novo. Já do nascimento da minha Ana me senti muito mal mas não admiti que precisava de ajuda.
Logo após a fecundação, o corpo da mulher sofre alterações profundas para gerar, nutrir e proteger o novo ser que se está a formar. O momento do parto, em termos de hormonas, dispensa qualquer descrição. Não me admira que depois disto tudo hajam mulheres que descompensem.
Eu fui uma delas.
Após o nascimento da Ana, "bati de frente" com a amamentação. Doía-me, gretei, chorei, neguei-me, enfim: passou a ser um martírio cada vez que se aproximava a hora de amamentar. Entrei em conflito comigo própria e num sentimento de culpa de que ainda hoje me ressinto. Ao fim de 15 dias comprei uma bomba extractora e ao fim de um mês já não amamentava, já não tinha leite.
Avariei.
Nunca tinha trocado uma fralda, dado um banho, um biberão a um bebé e a partir daquele 9 de Janeiro tinha tudo isso a meu encargo. Sentia-me angustiada quando se aproximava a noite....
Os meses foram passando e fui trabalhar. Essa primeira manhã de trabalho...chorei tantas vezes quantas vezes respirei. Já ao sair de manhã nesse dia 9 de Maio, olhar para ela a dormir na cama sem lhe poder explicar que dali para a frente tudo iria mudar, sai a chorar. A tarde passou melhor e chega a hora de a ir buscar a casa da avó Nanda. Quando lá cheguei e olhei para ela: aquele corpo, meio desnudado a brincar deitada em cima da mesa da sala como se nada fosse...chorei até soluçar. Depois deste dia fui ficando mais forte. Senti-me uma mulher inteira outra vez. Os meses foram passando e acontece a planeada gravidez do Pedro.
Novamente o corpo recomeça o seu trabalho. Novamente o parto e novamente a amamentação.
No segundo dia depois do Pedro ter nascido, tomei a decisão de fazer a medicação para inibir a produção de leite. Já me ressentia fisicamente e já tinha visto esse filme antes. Sobretudo tinha que estar bem para quando chegasse a casa não fazer sofrer a Ana, numa altura já de si frágil. Já me sentia desequilibrada.
Tomei a decisão.
Ao tomar o primeiro comprimido senti-me a pior mãe do mundo. Tudo o que senti com a Ana, senti-o novamente. Hoje reconheço que foi a melhor atitude. Tentei com a Ana. Tentei com o Pedro. Não fui capaz. Senti-me uma falhada, um mimalha, menos mulher: e se não tivesse dinheiro para comprar leite de fórmula, não teria que suportar aquilo? Eu não fui capaz de fazer aquele sacrifício tratando-se de um filho? Que mãe era eu?
Descarrilei outra vez.
Desta vez procurei ajuda médica. Estava de rastos. Não tratava de mim, só queria dormir, que alguém me ficasse com os miúdos, não saía de casa e ficava com o olhar vazio, parado, á espera não sei de quê. Todos os dias, invariavelmente, me martirizava que não era aquela mãe que queria ser para os meus filhos.
Fiz um tratamento e aos poucos fui melhorando. As minhas tarefas deixaram de ser tão penosas para mim. Fiz algumas coisas que queria fazer mas que não tinha tido coragem; fui-me sentindo mais liberta, mais viva. Também ajudou ter começado a trabalhar. Desta vez não foi penoso porque farta de estar em casa estava eu.
Ontem o médico deu-me alta da depressão pós-parto e fez-me sentir que em vez de eu achar que sou eu que estou a pensar mal, a agir mal e "beber" as opiniões dos outros porque essas é que são boas...que tal pensar por mim própria porque afinal a minha opinião sobre um dado assunto é TÃO válida quanto a de outra pessoa. Não é melhor nem pior, é a MINHA! Construída pela minha cabeça tendo por base aquilo que sou. Seguir os meus impulsos. O primeiro impulso é sempre o mais puro, o mais verdadeiro. Para quê esperar a opinião dos outros antes de agir?
É assim que vejo as coisa hoje.
Nunca pensei aos 34 anos, depois de ter dado á luz duas crianças perfeitas, ter-me enfiado num barco: acalmia - tempestade - acalmia - tempestade - ... Felizmente tinha um colete e penso que me salvei em relação aos meus filhos.
Agora falta remar em direcção ao papá..
Sem ele nada faz sentido: a minha vida, os meus filhos. Somos um todo.
Preciso dele para mim. Há aqui um véu que vai ser retirado porque eu quero e amo muito aquele homem. O meu marido, o meu confidente, o meu amor, o nosso papá...
Esse véu já me tapou toda. Tapou tudo á minha volta. Já me descobri, descobri os meus filhos agora é a vez da minha outra metade... Vamos a isso!